 tem rei. Se o tivesse visto, saberia, rapaz
de verão.
- Eles foram os Reis do Norte durante milhares de anos -
disse Meistre Luwin, erguendo o archote bem alto para
que a luz brilhasse nos rostos de pedra. Alguns eram
homens cabeludos e barbudos, desgrenhados como os
lobos que se agachavam a seus pés. Outros se
apresentavam escanhoados, com traços magros e
aguçados como as espadas longas que tinham sobre as
pernas. Homens duros para tempos duros. Venham -
caminhou vivamente pela cripta, passando pela
procissão de pilares de pedra e pelas infinitas figuras
esculpidas. Uma língua de chamas projetava-se do
archote erguido enquanto ele prosseguia.
A abóbada era cavernosa, mais longa que o próprio
Winterfell, e Jon dissera-lhe uma vez que havia outros
níveis abaixo, criptas ainda mais profundas e mais
escuras onde estavam enterrados os outros reis. Não
seria bom perder a luz. Verão recusou-se a se afastar dos
degraus, mesmo quando Osha seguiu o archote com Bran
nos braços.
- Lembra de suas histórias, Bran? - perguntou o meistre
enquanto caminhavam. - Conta a Osha quem eles eram e
o que fizeram, se puder.
Bran olhou para os rostos que passavam e as histórias
vieram-lhe à memória. O meistre contara-as, e a Velha
Ama dera-lhes vida.
- Aquele é Jon Stark. Quando os atacantes vindos do mar
desembarcaram no leste, expulsou--os e construiu o
castelo em Porto Branco. O filho foi Rickard Stark, não
o pai do meu pai, mas outro Rickard, que conquistou o
Gargalo do Rei do Pântano e casou-se com sua filha.
Theon Stark é aquele muito magro de cabelos compridos
e barba estreita. Chamavam-no "Lobo Faminto", porque
estava sempre em guerra. Aquele é um Brandon, o alto
com ar sonhador, era Brandon, o Construtor Naval,
porque adorava o mar. Sua tumba está vazia. Tentou
navegar para oeste, através do Mar do Poente, e nunca
mais foi visto. O filho era Brandon, o Incendiário,
porque passou o archote em todos os navios do pai por
desgosto. Ali está Rodrik Stark, que conquistou a Ilha
dos Ursos num combate de luta livre e a deu aos
Mormont. E aquele é Torrhen Stark, o Rei Que
Ajoelhou. Foi o último Rei do Norte e o primeiro Senhor
de Winterfell, depois de se render a Aegon, o
Conquistador. Ah, ali, aquele é Cregan Stark. Lutou uma
vez contra o Príncipe Aemon, e o Cavaleiro do Dragão
disse que nunca tinha defrontado melhor espadachim -
estavam agora quase no fim, e Bran sentiu-se submergir
em tristeza. - E ali está o meu avô, Lorde Rickard, que
foi decapitado pelo Rei Louco Aerys. A filha Lyanna e o
filho Brandon estão nas sepulturas ao seu lado. Eu, não,
outro Brandon, irmão do meu pai. Não era previsto que
tivessem estátuas, que isto é só para os senhores e reis,
mas meu pai os amava tanto que as mandou fazer.
- A donzela é bonita - disse Osha.
- Estava prometida a Robert, mas o Príncipe Rhaegar a
raptou e violentou - explicou Bran.
- Robert lutou uma guerra para reconquistá-la. Matou
Rhaegar no Tridente com o seu martelo, mas Lyanna
morreu e ele nunca a teve de volta.
- Uma história triste - disse Osha -, mas aqueles buracos
vazios são mais tristes.
- A tumba de Lorde Eddard, para quando seu dia chegar
- disse Meistre Luwin. - Foi aqui que viu seu pai no
sonho, Bran?
- Sim - a memória o fez estremecer, Olhou
desconfortavelmente em volta, com os pelos da nuca
eriçados. Ouvira um ruído? Estaria alguém ali?
Meistre Luwin aproximou-se do sepulcro aberto, com o
archote na mão.
- Como pode ver, ele não está aqui. Nem estará, durante
muitos anos. Os sonhos são apenas sonhos, menino -
enfiou o braço na escuridão do interior da tumba, como
se fosse a boca de um grande animal qualquer. - Vê? Está
bem vaz...
A escuridão saltou sobre ele, rosnando.
Bran viu olhos que eram como fogo verde, uma
cintilação de dentes, pelo tão negro como o breu que os
rodeava. O archote saltou dos dedos do meistre, rolou
pelo rosto de pedra de Brandon Stark e caiu aos pés da
estátua, com as chamas lambendo-lhe as pernas. A luz
ébria e irregular do archote, viram Luwin lutar com o
lobo gigante, batendo-lhe no focinho com a mão
enquanto os maxilares se fechavam sobre a outra.
- Verão! - Bran gritou.
E Verão veio, precipitando-se das trevas atrás deles,
uma sombra em salto. Esbarrou em Cão Felpudo e
atirou-o para trás, e os dois lobos gigantes rolaram e
voltaram a rolar num emaranhado de pelo cinzento e
negro, mordendo-se um ao outro, enquanto Meistre
Luwin se punha em pé com dificuldade, com o braço
rasgado e ensanguentado. Osha apoiou Bran no lobo de
pedra de Lorde Rickard e correu para prestar assistência
ao meistre, A luz do archote que se extinguia, lobos de
sombra com seis metros de altura lutavam na parede e
no teto.
- Felpudo - chamou uma voz sumida. Quando Bran
ergueu os olhos, o irmão mais novo estava em pé na
abertura da sepultura do pai. Dando uma última
dentada no focinho de Verão, Cão Felpudo afastou-se e
pôs-se ao lado de Rickon. - Deixe meu pai em paz -
avisou Rickon a Luwin. - Deixe-o em paz.
- Rickon - disse Bran suavemente. - O pai não está aqui,
- E